Mistura essa gente, por favor!
Março 14, 2008
Quando você mora, por um tempo, em outra cidade ou país, começa a se sentir como parte de lá. Então, falar mal não é uma coisa agradável de se fazer, porque você sente que está traindo. Traindo aquilo de bom que viveu lá, traindo uma parte de você.
De qualquer forma, eu vou tentar. E vou deixar as belezas, o deslumbre pra depois. Porque é muito mais fácil elogiar. Afinal, elogiar uma escolha sua, é elogiar você.
Estive na África do Sul, Cidade do Cabo por três meses. De dezembro/07 a fevereiro/08. Quando se chega, tudo é festa, tudo é lindo. E aquela aula de história sobre apartheid, fica em algum lugar da memória, bem escondido.
Alguns dados: Conforme nossa amiga wikipédia, o apartheid terminou em 1990. O que é bem estranho, porque lá todos me disseram que foi 1996. Os negros são 79,5% da população na África do Sul. E brancos, 9,2%.
As pessoas andam juntas, juntas entende-se por andar na mesma rua. Sentar ao lado no trem, almoçar no mesmo fast food. Mas vamos mais longe. Festas em conjunto? Claro que não. Bairros ricos “divididos”?Não. Praias paradisíacas? 80% é branco, o resto tá vendendo óculos de sol.
O apartheid pode ter saído da legislação, mas continua no imaginário das pessoas. Basta ver por alguns conceitos: Bairro “Misturado”; Convive branco, preto e “colorido”. O “colorido” é o nosso mulato e os descendentes de indianos e árabes. Bairro Cinza: preto e branco. E bairro preto ou bairro branco não precisa explicar.
Essa divisão vem de bem antes. Nas décadas de 50 e 60, o governo pesquisava as melhores áreas da cidade, e se elas fossem ocupadas por bairros “misturados”, a ordem era “este será um bairro só de brancos, os negros e coloridos favor se deslocarem para a periferia da cidade”. E assim foram criadas as favelas. O emprego ficava longe, a escola também. Viva a desigualdade social!
Uma minoria mandou quem ficava e quem partia. E se você era negro ou colorido tinha sempre que andar com uma espécie de passaporte, o qual diria de que área você pertence. Exatamente, a partir deste momento, você não pode circular pela sua cidade, fique no seu bairro ou será preso. Precisa visitar a tia que mora do outro lado? Tem que tirar permissão na polícia.
No primeiro mês eu não entendia porque os negros me olhavam daquela maneira. A maioria olhava por baixo, não encarava. E quando encarava, vinha um olhar (veja bem) “misturado”: raiva, inveja e ao mesmo tempo, parecendo pedir perdão.
As vezes o que eu deseja era só ser negra. Pra não me sentir culpada. Mas a pergunta era: Culpada pelo o quê?
Claro que não eram todos assim, há muitos de outras partes da África, com outra cultura. Há outros que parecem já terem esquecido e te tratam como uma “sis” – sister, irmã. Talvez porque eu seja turista, o tratamento seja um pouco diferente. Mas não é por isso que você deixa de sentir o desconforto da branca velha quando uma negra senta na frente dela no trem.
Depois de um tempo, você se acostuma com expressões do tipo “festa de colorido”, “casa de branco”, “roupa de preto”. E até acho estranho quando eles falam sobre cultura africana em geral. Mas, de qual delas?
A minha esperança é a gente nova. O que me alivia é que criança é criança, independente de lugar. E os adolescentes de lá estão achando esse papo de divisão, fora de moda. Foram muitos anos e a ferida ainda é recente. Eu espero que as novas gerações prestem mais atenção do que eu nas aulas de história pra não cometerem os mesmos erros.
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Tags: apartheid, áfrica do sul, cultura africana, racismo, viajar
Março 15, 2008 at 10:09 am
Engraçado ler isto. Lá a gnt achava normal ver td separado, bairro de uma cor, bairro para outra cor. Rolava um certo desconforto na praia, lembra disso? Não tinha ngm diferente, todos loiros, branquelos e sem bunda, e qdo a gnt chegava, acabava com aquela paisagem uniforme. Lembra que falávamos que nem parecia a África?
Pois é, era a África.
Realmente espero que esta situação mude. Como um lugar maravilhoso, quase um paraíso na terra pode permitir uma situação dessa? Ainda bem que as novas gerações estão aí para mudar isso, né? Por isso eu acredito no futuro.
Harumi.
Março 15, 2008 at 12:18 pm
Juuuu
Seja bem vindaaaaa
Muitooo tri teu texto amigaaaa …
bjossss
Março 15, 2008 at 4:14 pm
É Juju, vejo que o teu blog tem tanto carisma quanto o nosso antigo Petecando….
Março 20, 2008 at 12:03 am
Os leitores querem mais textos!
Quem mandou escrever bem?
Junho 28, 2008 at 11:11 pm
E o pior de tudo é que aqui, em nosso país, onde não vivemos um apartheid nos moldes do deles, e que nossa trajetória racista mais evidente cessou no século XIX, temos coisas muito parecidas com o que você relatou.
Vá a uma festa de pessoas muito ricas e conte quantos negros figuram lá como convidados. Qualquer um perceberá que os número de negros é pequeno e, geralmente, na condição de serviçais.
Isso choca, especialmente pela proporção de negros que temos em nossa população.
Aqui, também temos que nos misturar…