- Paizinho, vem cá!

Gritou ela da sala pra área aberta da cobertura. Toda quarta era assim, filha de pais separados, morava com o Paizinho. Na quarta era o dia da semana que ele estava em casa, o resto precisava cumprir seu papel de homem importante que viaja em negócios. Nesse dia, tinha churrasco, música e risadas.

O vizinho via tudo aquilo, ele era o google-earth-(tentando ser)dominador que brincava de big brother. Tinha o “inho” no final do nome, mais por coincidência desse português estranho do que por afeto, como Paizinho. O vizinho sabia de todos os podres da guria. Mas o pior de todos era aquela bandeira do colorado estendida na janela em dia de jogo. E ainda Paizinho, um cara tão respeitável, apoiava essa pouca-vergonha.

Ela era uma viciadinha. Viciadinha em internet e playstation. Em trabalhos gigantes com maquetes pra faculdade de arquitetura. O vizinho também era um viciadinho. Viciadinho nela, no interesse exaustivo pelas novidades da cobertura do prédio da frente. Cuidava de tudo, ficava apreensivo quando ela deixava de subir pra bela vista que tinha do alto do seu apartamento. Ficava feliz quando ela marcava festas de turma no sábado de noite. Já conhecia tão bem a personalidade dela que podia prever com que sortudo ela iria acabar no final. Segunda-feira, coitada da Tetê. Sobrava pra ela toda a cobertura emporcalhada pra limpar.

O vizinho saiu de casa pra ir visitar a mãe. Às vezes caía na real e lembrava que tinha vida própria e família também. Mas era tão desinteressante…

Depois de fechar 40 mil portas e grades, estava, enfim, na rua. Era bom caminhar um pouquinho, só tomar Activia não era o exemplo de saúde e gostosura que Paulo Zulu defendia. Ok, 10 minutos de caminhada até a casa da mãe, muito pensamento positivo (ele tinha acabado de ver “O Segredo”, estava empolgado) e um programa de dieta radical que nunca irá seguir deve ser o suficiente.

Deu meia volta, botou-se a mexer a bunda gorda. A cinco metros da esquina, vê ela. O vizinho fica embaraçado, pensa em cumprimentar, pensa como seria melhor “um aperto de mão, um abano ou até dois beijinhos?”, ela pára. Ele lembra-se de Marlon Brando, como queria que fosse a primeira impressão dela? Versão “Uma Rua Chamada Pecado”, homem macho, repugnante e charmoso ou como “O Poderoso Chefão”, o malvado irrestível? Ele vai parando como quem não quer nada do lado dela. Ela solta um: “puta que pariu!” e segue reclamando sozinha do i-pod que sempre dá problema justo na melhor música.

O vizinho, mais constrangido ainda, volta a ser o João-Ninguém. Mas que neguinha safada, pensa ele. Fico imaginando nosso primeiro encontro há meses e a primeira frase é puta que pariu. Acabou indo pra casa da mãe e se entupindo de coca-cola e pudim de leite, acompanhado das ladainhas dela sobre a vida das plantas. Ele era uma evolução, pensou. Pelo menos, controla humanos e não plantas.

mau-humor

Abril 18, 2008

Ela tomou um banho longo, esfregou com raiva o shampoo no cabelo, fazendo muita espuma. Os olhos arderam, a lente grudou. Sensação desagradável. Tentando deixar o resto do mundo fora do banheiro, tinha posto Los Hermanos pra tocar. E aquela música chorada foi sendo levado junto com a água, com a raiva, com todas as pessoas.
Malditas pessoas, pensava ela. Por que simplesmente não a deixam? Esqueçam sua existência, só por um tempo. Queria o anonimato total. Porra de orkut. Merda de vida. E a voz do editor-chefe enchendo o saco todo dia não saía daquela cabeça ensopada de shampoo.
Saiu do banho, desligou o som, tropeçou no all star branco jogado no meio do chão. Merda. A casa tava uma bagunça, pratos pra lavar, roupa suja se acumulando, cds em caixas trocadas, copos em volta do computador. Que se foda, disse ela.
Que se foda essa vidinha miúda. Colocou a culpa de seu pseudo fracasso nos filmes hollywodianos que sempre têm um final glorioso. Onde estavam as músicas vibrantes na hora que enfrentava o chefe, os políticos, os inimigos? E as pessoas aplaudindo no final? De certo, não tinha chegado o final, acreditou com uma sobra de esperança. Depois desistiu dessa idéia. Lembrou da vida dos pais. Não tinham recebido nada em troca até agora. Nem dinheiro, nem gratificações, nem nomeações, nada. Nem amor dela.
Sentiu tristeza por um tempo, mas seu egoísmo deixou esse assunto ir embora depois que viu que não tinha mais roupas limpas pra botar. Então, resolveu fazer o mesmo de sempre: Procurou uma blusa mais ou menos limpa, o jeans da semana, passou reto pelo espelho. Acendeu um cigarro, ligou a TV. E se deixou virar vegetal, o seu momento mais feliz do dia.

Estudando Guy Debord e sua sociedade do espetáculo, começo a refletir. Será que, desde o princípio, a lógica do mercado teve a missão de somente buscar audiência? O espetáculo, pautado pela emoção e sentimento através de imagens sofridas, não seria a única forma de tocar as pessoas ao ponto delas quererem mudar sua realidade?
Ou a abundância deste tipo de imagem não acabaria deixando o sofrimento como algo vulgar e até comum? Como no filme, Hotel Ruanda, onde no meio do conflito há um jornalista fazendo filmagens e o líder, desesperado, pede para mostrar ao mundo toda a desgraça para que algo seja feito. O jornalista, responde: “Não importa o que eu mostre, as pessoas vão estar jantando, vão dizer ‘que horror!’ e depois de dois minutos irão se esquecer”.
O fotógrafo, o músico, o jornalista , o escritor, o cineasta, todos fazem o mesmo: jogam a bola pro outro. “Isto está acontecendo, e ai o que você vai fazer? Eu já fiz a minha parte”. Vivemos em uma sociedade individualista, e eu me pergunto: Até onde fazemos imagens chocantes para mudar o mundo ou para mudar nosso status perante os outros? Fazer imagens, ao contrario do princípio de mostrar a realidade para incentivar um mundo melhor, teria se tornando em auto-promoção?
James Nachtwey, o melhor fotógrafo atual de guerras, diz que faz isto porque o mundo precisa ver aquilo. Seria esse o método mais efetivo? Não traria uma banalização à violência? Será que estas imagens duras são capazes de mudar as pessoas ou só as deixariam com uma sensação de impotência? A ampla divulgação de desastres, em escala globalizada, não deixaria o ser humano sentindo-se pequeno demais para tomar uma atitude?
Madre Theresa dizia que jamais iria a um protesto anti-guerra e sim a uma passeata pela paz. Chocar o publico é a melhor opção? O choque continuo acaba destruindo com a esperança. Lembrem daquelas pessoas que vocês considerem “felizes”. Qual é sua característica em comum? Todos acreditam que o próximo dia será melhor. A vida é esperança. Empurrar imagens violentas não seria nocivo à esperança, logo, à vida?

Júlia Otero