Destruição através de imagens
Abril 11, 2008
Estudando Guy Debord e sua sociedade do espetáculo, começo a refletir. Será que, desde o princípio, a lógica do mercado teve a missão de somente buscar audiência? O espetáculo, pautado pela emoção e sentimento através de imagens sofridas, não seria a única forma de tocar as pessoas ao ponto delas quererem mudar sua realidade?
Ou a abundância deste tipo de imagem não acabaria deixando o sofrimento como algo vulgar e até comum? Como no filme, Hotel Ruanda, onde no meio do conflito há um jornalista fazendo filmagens e o líder, desesperado, pede para mostrar ao mundo toda a desgraça para que algo seja feito. O jornalista, responde: “Não importa o que eu mostre, as pessoas vão estar jantando, vão dizer ‘que horror!’ e depois de dois minutos irão se esquecer”.
O fotógrafo, o músico, o jornalista , o escritor, o cineasta, todos fazem o mesmo: jogam a bola pro outro. “Isto está acontecendo, e ai o que você vai fazer? Eu já fiz a minha parte”. Vivemos em uma sociedade individualista, e eu me pergunto: Até onde fazemos imagens chocantes para mudar o mundo ou para mudar nosso status perante os outros? Fazer imagens, ao contrario do princípio de mostrar a realidade para incentivar um mundo melhor, teria se tornando em auto-promoção?
James Nachtwey, o melhor fotógrafo atual de guerras, diz que faz isto porque o mundo precisa ver aquilo. Seria esse o método mais efetivo? Não traria uma banalização à violência? Será que estas imagens duras são capazes de mudar as pessoas ou só as deixariam com uma sensação de impotência? A ampla divulgação de desastres, em escala globalizada, não deixaria o ser humano sentindo-se pequeno demais para tomar uma atitude?
Madre Theresa dizia que jamais iria a um protesto anti-guerra e sim a uma passeata pela paz. Chocar o publico é a melhor opção? O choque continuo acaba destruindo com a esperança. Lembrem daquelas pessoas que vocês considerem “felizes”. Qual é sua característica em comum? Todos acreditam que o próximo dia será melhor. A vida é esperança. Empurrar imagens violentas não seria nocivo à esperança, logo, à vida?
Júlia Otero
Abril 13, 2008 at 10:09 pm
“O choque continuo acaba destruindo com a esperança. Lembrem daquelas pessoas que vocês considerem “felizes”. Qual é sua característica em comum? Todos acreditam que o próximo dia será melhor. A vida é esperança.”
é menina, talvez o choque contínuo destrua a esperança porque gera (sim, exageradamente) a consciência de que o mundo segue “ladeira abaixo”. Talvez a esperança exista, ainda, naqueles que não notam o mundo ao redor. Em outras palavras, a esperança estaria ligada diretamente à ignorância e, fatalmente, à felicidade.
Rs. Desculpa, nem nos conhecemos e já estou eu despejando meu mau-humor e pessimismo por aqui. rs
Ps: Guy Debord, John Mayer, Na Companhia de Homens (eu li os posts anteriores também)… gostei bastante desse canto, mocinha. E obrigado por citar meu blog aí do lado. É uma honra (sem demagogia).
Junho 27, 2008 at 11:12 pm
As más notícias são tantas em nosso mundo, que nem parecem mais serem tão más assim. Nada mais nos choca e cada vez terá menos impacto.
O que fazer quando os mendigos estão deitados na nossa calçada, quando não precisamos mais assistir o jornal para ver tiros, quando os assaltados e sequestrados somos nós? A realidade opressora não está mais longe, está em nossa porta… e isso faz com que o que temos que fazer é defender a nós mesmos.
Como vou me preocupar com a Palestina, quando tenho que desconfiar do sujeito que estána parada de ônibus comigo? O instinto de sobrevivência faz com que nossas preocupações sejam objetivas contra algo que é urgente e ameaçador.
Como poderiam fotos serem mais poderosas do que o que vemos ao vivo e em cores?
A humanidade desde sempre mostrou sua pior face e isso nunca conseguiu gerar uma comoção grandiosa, muito menos ações concretas daqueles que defendem o bem.
Os maus grassam… e os bons se defendem. Talvez isso nunca mude.