Favela

Maio 14, 2008

Lá na África do Sul, como qualquer país pobre não tão pobre assim, tinha um passeio pra turista na favela. “Favela”. Casinhas todas iguais, material de construção barato, sem grade, de porta aberta, criança brincando na rua… Favela. Pfff..

Tá, até tinha uma parte minúscula que tinha aqueles casebres que a gente conhece de passar pela estrada e abrir o olho, ainda meio dormindo, e ver a vida dos índios. O caso é que a professora estava juntando gente pra ir, disse que conhecia um pessoal de lá, que a gente não ia parecer uns turistas idiotas, ia andar, conversar. Papo estranho. Conversar em favela? Ok. Chegamos lá e foi esse interior de Rio Grande do Sul que encontramos. Uhu. Mas é sempre assim, consciência social comprada em 12 vezes sem juros nunca vai existir.

Foi a minha turma da primeira vez, cheia de brasileiros, olhou aquilo lá e disse: fichinha. Depois foi uma turma de gringo, com russo, coreano, italiano, suiço e tudo mais que tinha direito. Pronto! Choradeira. Quando eu fiquei sabendo que gringo chorou por ver criança na rua… Puta. Que raiva! A vontade que eu tive era de dizer: “Sabe pq tu tá chorando? Pq tu sabe que vai voltar pro teu país perfeitinho, vai sentar na cadeira de trabalho, contar as ‘desgraças’ que viu, todo mundo vai fazer um comentário do tipo ‘esse mundo tá perdido’ e depois de 10 minutos todo mundo já esqueceu”. Não falei pq meu inglês era uma bosta. E a verdade é q tu só sabe a língua qd consegue brigar. O q não era meu caso.

Mas, com o tempo, pensando com calma, fui analisar essa minha raiva. E entendi que, no fundo, eu não tava com raiva deles. Eu tava com raiva de mim. Por eu não me chocar mais com pobreza, por fazer parte dessa gente que só reclama do país e não faz nada. Por não acreditar que as coisas vão melhorar, por ser conformista e aceitar a pobreza como algo normal. Por deixar de ser humana. Por deixar de me horrorizar. Não vou culpar a TV como muito sociólogo francês anda fazendo por aí. A única culpada aqui sou eu. Os meus olhos não foram fechados para a realidade. Foram se acostumando, no pior estilo “quem sou eu pra fazer alguma coisa?”.

Foi estranho. Vendo uma África, eu descobri que tinha perdido a fé no Brasil.