Crianças
Agosto 23, 2008
Entrou na loja com seu vestidinho de princesa, branco, cheio de camadas. A criança parecia um repolho, um repolho meigo. As pernas gorduchas que deviam medir uns 30 cm, cobertas até a metade. Os braços cheios de dobrinhas de gordura, mal sabia caminhar. Uma gracinha!
As vendedoras, como de costume, cercaram a coitada fazendo várias perguntas ao mesmo tempo com vozes de retardadas. Por que todo adulto quando fala com um bebê tem esse comportamento?
Ela, que já era tagarela desde piá, deu corda. As mulheres se entusiasmaram. Uma delas perguntou:
- Quem tu mais gosta na tua casa?
- A Bisa, respondeu devolvendo um sorriso com metade dos dentes na boca.
“Oooooh, que amor!”, ouviu-se, unânime, na roda.
A menina, feliz com a atenção, resolveu completar:
- A Bisa come ração de gato.
Todas se entrolharam. “Pobre velha!”, devem ter pensado. A mãe, que já estava meio longe – conseguiu um tempo livre pra poder olhar as roupas descansada – ouviu a conversa. Riu sozinha. E depois saiu com a criança no colo, sem dizer nada, enfrentando os olhares de reprovação.
Chegando em casa, contou o episódio ao marido, gargalhando. Ele, muito sério, disse:
- Essa guria vai ter que fazer fonodióloga.
Brisa, a gata, que até agora tinha ouvido a conversa dos dois, não entendeu nada. E continuou comendo sua ração.
e deus criou o homem, à sua imagem e semelhança
Agosto 20, 2008
Ontem à noite, como explicariam os gregos na minha imaginação, os deuses deram uma festa. Tinha tanta bebida que chegava a cair aqui embaixo. “Chovia a cântaros”, diria um mortal.
Quando amanheceu, a sobra da fumaça deles empestava a vista dos homens. O fumo, consumido na madrugada a dentro, deixou seus traços no ar. É a névoa que permite a todos os humanos saberem como é a miopia – embaçada, sem enxergar nada além de 1 metro de distância.
Se algo de ruim acontecer hoje, não se espante. Em dia nebuloso, os deuses estão de ressaca.
Hoje, enterrei meu passado. No velório, poucos convidados: a saudade, o acaso e a vergonha.
Cansei dele tipo Cristo que ressucita sangrando.
Deliciosamente ignorante
Agosto 7, 2008
Coloca os fones. A música começa lenta, se arrastando… Sobe com alguma nota que ele não faz idéia qual seja – nunca fez aula de música. Mas consegue senti-la e isso já basta. O inglês ainda traz uma sensação parecida com a vida: entende mais ou menos, o resto é imaginação. Depois de uns 30 segundos, começa a parte alta. Sim, se ele pudesse desenhar a música, faria morros. Morros de emoção de lápis de cor, cada música, uma tonalidade. Eles seriam menos impressionantes daqueles gráficos de som de carro e mais suaves que ele próprio. A tal da ”parte alta” só é identificada por seres humanos comuns, ignorantes no quesito teórico musical. É a parte que o indivíduo começa a querer pular, gritar… Os pézinhos batem no chão, o controle da cabeça pra não mexer em movimentos bregas é constante… Algumas músicas não tem parte alta. E isso não se refere à qualidade – às vezes ele até podia ver a parte alta em um funk, pasmem! Se refere à emoção.
Daí, vem a mágica: a covinha na bochecha reaparece.
Sobre meus personagens
Agosto 5, 2008
“Os personagens do meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. É o que me faz amá-los todos e temê-los ao mesmo tempo. Uns e outros atravessaram a fronteira que apenas me limitei a contornar. O que me atrai é essa fronteira que eles ultrapassaram (fronteira para além da qual termina o meu eu). Do outro lado começa o mistério que meu romance interroga. O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana, na armadilha que se transformou o mundo.”
A insustentável leveza do ser – Milan Kundera.