Hoje meus olhos estão opacos. E, por aqui, tu não adivanharás nada. Não é que tenha me faltado vida nem rímel. Mas é que acordei com a cabeça vazia com pensamentos tão distantes que nem eu mesma consigo achá-los. Num dia como esses, não sinto coisa alguma - nem tristeza, nem alegria – apenas existo. E tu me miras, tentando decifrar olhos que já se tornaram refletores do nada.
Um esclarecimento
Outubro 31, 2008
Eu não discuto com gente que não acredita na democracia.
Inspirando idiotas
Outubro 29, 2008
Não gosto de histórias de superação. O ex-mendigo que virou milionário ou o oposto, o cara que largou a família rica pra viver na simplicidade. Essa criação de heróis é só uma forma de cultuar nosso sistema econômico “cada-um-por-si-deus-por-todos” (enquanto não acham uma maneira de privatizar deus – aliás, talvez uma tal de universal já tenha conseguido).
Os exemplos que saem na mídia com o objetivo de “inspirar” as pessoas, na realidade, só fazem com que a idéia do individualismo se propague. “Acredite. Lute. Persista. Você consegue!”. Sozinho. Porque nós chegamos num tempo em que o discurso da liberdade pessoal é tão cego que vê na multidão unida pessoas sem identidade.
Não me ponho contra a perseverança, pelo contrário. Mas desagregar a força dessas pessoas em prol de interesses particulares é interessante pra quem tá no poder se manter lá. Incetivar esse processo do indivíduo como único responsável pela sua condição é confortável, desresponsabiliza o Estado de qualquer causa social. E cria a imagem de perdedores e vencedores, já nasceram assim.
Então, de que lado estás? És perdedor, vencedor ou gente de verdade?
Srta Ninguém
Outubro 28, 2008
Some e aparece. Brincando de esconde-esconde, a criança de 27 anos se acha no auge da chamada liberdade. Responsabilidades e compromissos – quem os quer? Somente na medida necessária pra pagar os vícios e ponto.
Livre pra poder acabar e voltar quando der na telha. Um dia, ela foi numa festa e largou na chapelaria as preocupações. Não voltou pra buscar. Depois de algum tempo, esqueceu-se de ser séria. ”Nunca vai ser alguém”, cochicha a vizinha aposentada que a vê na madrugada errando o buraco da chave. E quem disse que ela quer ser alguém? Anonimato, já!
A alegria nunca foi de provar nada, então guardei um pouco de melancolia pra ti. Pra ver se tu me agüenta, me gosta de verdade. Às vezes eu sou assim: misturo fantasia e vida de propósito. A realidade, por si só, é muito pouco pra entender. Então, não me venha com ciência, hoje eu quero teatro. Encena!
Palavras erradas se fantasiando de certas saem pelos dedos. Entram na tela do computador, fogem para internet. Palavras imprecisas, sentimentais. Malditas! Antes existissem para comunicar, explicar. Mas não! Só confundem mais essa cabeça que não precisaria de nada além do próprio corpo, se não tivesse ousado pensar.
Calçadas de mármore que escondem bolsos vazios no centro da cidade. Gigantes em forma de prédio que ostentam a imagem de poder, inabitáveis para os pés descalços. E a última ideologia, totalmente numérica, indecifrável aos olhos plebeus: o mercado financeiro.
É incrível como uma paisagem pode decodificar uma sociedade.
Hoje um cara bateu na minha porta e perguntou se eu não queria comprar um pouco de esperança. Eu perguntei: “Quanto?”. E ele veio com um papo muito de vendedor de nike falsificado, dizendo que aquele produto estava com um pequeno defeito de fábrica, mas que ninguém notava, daí tinha um descontinho e tal.
Eu respondi: “não, muito obrigada” e guardei meus trocados pro próximo ambulante que tocasse a campainha. Talvez ele traga algo mais útil, tipo sinceridade – desde que venha com defeito de fábrica também.
Na porta do banheiro, um bonequinho de vestido. Da outra, um bonequinho pelado. Até no íntimo da privada, temos que aparentar ser pudicas.