ahã…

Novembro 29, 2008

Ele tava com uns amigos estranhos, bebendo na esquina de qualquer bar. A cara, inchada, de quem tomou umas na noite anterior, acordou tarde e, pra dar bom dia ao mundo, abriu uma ceva. Me puxou prum abraço meio torto e reclamou do tempo que a gente não se via. “Tu sempre some, guria!”, saudou rindo. Quando tentava mater uma conversa mais ou menos, ele fazia questão de várias vezes dar um toque de leve no meu braço como quem tenta ser sutil em indiretas corporais, mas burocratidamente não tá fazendo nada. Ele contou de uns causos usuais pro seu papo e jeito. Depois me chamou pra comprar não-sei-o-que, pegou na minha mão “pra gente não se perder”. E eu, me desvencilhando, com um sorriso amarelo como quem diz: “já peguei teu amigo, vaza”, na verdade verbalizei: “vou ali e já volto”.

Te vejo em outra madrugada pra tu repetir: “Tu sempre some, guria!”

final de ano me mata

Novembro 28, 2008

Ando afim de ficar calada pra não parecer mau-humor.

envelheceu

Novembro 24, 2008

E então ela se fez distante. Não quis mais falar sobre temas polêmicos, nem banais. Tudo que pudesse juntar, ela desprezava a partir de agora. Foi ficando miúda, trocou o brilho pelo opaco de vez. Talvez estivesse desistindo. Ninguém entendeu, quiçá nem ela. As frases saíam previsíveis de sua boca que não mostrava mais os dentes. O temperamento explosivo virou pó. E, na troca de espírito, personalidade ou sei-lá-o-quê, sobraram os olhos. Eles miravam um horizonte que nenhuma outra pessoa conseguia ver, pareciam imunes ao tempo, à pressa e à toda confusão que um dia já causaram.

1.3

Novembro 24, 2008

Um perdão ao português. E às palavras repetidas.

Insônia: Vai te fudê, tenho aula amanhã cedo, quero dormir JÁ, sua bostona! Se tu pudesse me largar só por umas quatro horinhas, seria muito gentil da tua parte. Grata!

1.2

Novembro 24, 2008

Se bem que o velho tinha certa razão. Ele não acreditava no casamento, nem na fidelidade. Dizia que não entendia como as gaúchas, mulheres lindas e inteligentes – ele falava – conseguiam se subordinar (essa palavra mesmo: subordinação) aos homens gaúchos que eram uns grossos. Homem tem que ser delicado sim, defendia ele, tem que saber conversar, tocar. “Já me chamaram de bicha não sei quantas vezes, mas como minha amiga diz sou bicha do umbigo pra cima” e logo depois uma moça simpática com uns 20 anos passou pela mesa e cumprimentou ele, e o velho pra mim depois: “não sei quem é. será que nós já transamos?”, falou rindo muito.

Ele vivia mais ou menos como eu idealizei há um tempo atrás: de um lado pro outro, sem muito vínculo, não traindo ninguém – se tá bom, estou lá, senão, me mando. Mas olhando assim pro velho que tinha tanto pra contar, duvido da tese de que rotina é tão maléfico assim pra qualquer tipo de reforma. Ele reforma o quê? Só a si mesmo? Não sei se consigo carregar um egoísmo assim.

1.1

Novembro 24, 2008

Mas e se, de repente, eu me interessar por alguém? Aí, minha consciência e principalmente minha teimosia vão negar até a morte. Porque eu não vou acreditar no velho. O velho me disse que amor só existe na adolescência. Eu podia ter contado a história dos velhinhos que se conheceram no asilo e se casaram sexta passada por lá mesmo e ficarão juntos até que a morte os separe – o que não deve ser tão longe. Mas também quem me garante que eles tavam mesmo apaixonados? Eu queria comprar briga com o velho canadense que desenvolvia projetos ambientais em Porto Alegre e que não acredita no amor, só no tesão. Mas calei a boca e escutei ele misturar assuntos sobre como fazer uma bolsa com um tecido – que ele insistia em chamar de técido – com histórias de sexo pelo mundo todo. Eu só atraio gente louca. Mas foi divertido até. Ele dizia que podia ser meu avô num português arranhado – eu não ia tentar falar inglês, tá no meu país, vai falar minha língua, tchê. Ele tinha 57 anos e nenhuma vergonha, me perguntou se eu gostava de homem ou mulher como quem pergunta se eu sou gremista ou colorada. Depois falou sobre política como poucos brasileiros se atreveriam a falar e sabia todos os partidos, já tinha dado idéias de projetos pra metade das bancadas da Câmara e não podia passar por uma propaganda que sobrou das eleições nas ruas pra discursar sobre o tal candidato.

Mas eu começei a falar do velho porque ele não acreditava no amor. Mas, afinal, esse assunto não interessa a ninguém.

1.

Novembro 24, 2008

Pelo direito de privacidade nos tornamos solitários burocráticos que já nos ofendemos, no alto da liberdade individual e do feminismo imbecil, se alguém nos pergunta o que faremos amanhã.

Para sr. Rabuske

Novembro 24, 2008

“Existem respostas espertas e existem respostas evasivas. Respostas simples e diretas não existem.”

Amós Oz – Rimas da vida e da morte

Ex-colegas

Novembro 21, 2008

Sai pra conversar com os velhos colegas do colégio. E nota que o passado é o começo e o fim da conversa. Que coisa chata! “Quando eles se tornaram tão desinteressantes?”. O ex-melhor amigo da escola hoje tá fazendo direito. “Pô! Direito!”. O cara se tornou mais um de moral em cápsula e, pior, engravatado. A guria que ele pegava tá fazendo moda. “Nhá.. moda..”. Sabe de todas as tendências. “E de que me adiantam? Realmente não me sentiria supercontente se adivinhasse a capa da elle ou seja lá qual outra que minha mãe adora – e pra mim, são todas iguais: trapos caros e coloridos da última estação. Será que ela se tornou que nem essas revistas? Quero dizer… teria virado fútil? E quase engulo o adjetivo por medo de ser desmoronado numa crítica de um filósofo fashion que me mostre o contrário”. E o Cabeça! Aquele companheiro pros primeiros tragos. “Ele começou a brincar de malandro quando fomos pra Porto Seguro – só que parece que ainda não voltou de lá e toda noite que apareço no bar, lá tá ele. Tô velho. Até amigo pseudo-alcólatra, eu tenho. Puta merda!”. O que era mais cobiçado pelas gurias e chegou – dizem as más línguas – a ficar com 7 (sete!) na formatura, tá um gordo chechelento. “Entrou pra empresa do papai, é diretor de não-sei-o-quê da transportadora, mas parece que a única coisa que transporta é comida pra dentro de si… Ex-surfista é foda”.

- Mas e ai, gente? Mais uma?, pergunta o pseudobêbado

- Bá, vou indo nessa. Amanhã tem que trabalhar né. [mentira]

- Eu também. Ainda tem um monte de papelada pra encaminhar pro Tribunal…

- Então tá gente.. Foi um prazer. Vamos marcar isso mais vezes… [mentira]

E sai correndo, tentando manter a imagem dos colegas com as lembranças boas do colégio, onde o futuro parecia promissor. E desejando, também,  não avaliar a própria vida e o que tinha feito com ela. Ou o que não tinha feito.

isso continua valendo

Novembro 16, 2008

Sobre meus personagens

Agosto 5, 2008

“Os personagens do meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. É o que me faz amá-los todos e temê-los ao mesmo tempo. Uns e outros atravessaram a fronteira que apenas me limitei a contornar. O que me atrai é essa fronteira que eles ultrapassaram (fronteira para além da qual termina o meu eu). Do outro lado começa o mistério que meu romance interroga. O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana, na armadilha que se transformou o mundo.”

A insustentável leveza do ser – Milan Kundera.