A vez de conjugar certo
Julho 4, 2009
De sobretudo preto com botas da mesma cor, ela passou, sem querer ser notada, por aquela rota inevitável para chegar ao estacionamento. Com o olhar baixo, procurou, por impulso ou rotina, aquele conhecido que já era símbolo do lugar. E encontrou, além dos habituais sonhos em cartaz colados na parede, toda mesma gente de anos. Pessoas que já viraram rostos familhares, mas cujos nomes são desconhecidos e a falta de aceno se dá pela mera burocracia de ainda não terem sido apresentadas formalmente. Fora o povo de sempre, havia ele. Mesmo ele estando detrás de um óculos, os olhos, reflexos do entusiasmo que ela sempre admirou – e no fundo, bem no fundo até invejava -, mostravam dessa vez outro sentimento. Ela não parou, não perguntou nada. Não cumprimentou, fez a melhor pose de antipática ou reservada que pôde e seguiu. O salto da bota batendo no chão. Mil pensamentos martelando na cabeça. Saiu constrangida. Não deveria ter visto nada. Tinha que ter vindo de ônibus. E, a partir daí, o silêncio se instaurou. Outra terceira pessoa do singular feminino entrava na história. Ela, querendo que o sobretudo cobrisse até a cara, bateu em retirada. Estava na hora de dar lugar a uma que formasse finalmente com ele uma primeira pessoa do plural.