Comunicação – anos dois mil
Setembro 23, 2008
roendo palavras,
cuspo frases
escuto arrogâncias
finjo entender
penso ao contrário
anseio o fim
e deus criou o homem, à sua imagem e semelhança
Agosto 20, 2008
Ontem à noite, como explicariam os gregos na minha imaginação, os deuses deram uma festa. Tinha tanta bebida que chegava a cair aqui embaixo. “Chovia a cântaros”, diria um mortal.
Quando amanheceu, a sobra da fumaça deles empestava a vista dos homens. O fumo, consumido na madrugada a dentro, deixou seus traços no ar. É a névoa que permite a todos os humanos saberem como é a miopia – embaçada, sem enxergar nada além de 1 metro de distância.
Se algo de ruim acontecer hoje, não se espante. Em dia nebuloso, os deuses estão de ressaca.
“Bom Dia!”
Junho 27, 2008
Pegou o onibus na mesma lomba de sempre. Era um dia feio, chovendo e a sombrinha quebrada nao ajudava. Puxou de dentro de si o melhor “Bom Dia!” que conseguiu pro motorista. Pensava que o dia comecava ali, o motorista com certeza tinha um trabalho pior que o seu: Aguentava gente reclamando, gente mal-educada, tinha que estar atento a tudo, pessoas que entram, saem, o trafico e o “piiii” de “parada solicitada” pelo menos 50 vezes por dia. Se esse cara conseguia dar um sorriso, por que ele, que trabalhava em um escritorio, nao poderia tambem?
Desceu umas 7 paradas depois. Atravessou a grande avenida, feliz da vida porque so a borda da calca estava molhada. Entrou no predio cinzento, deu outro “Bom Dia!” para a secretaria ruiva que mascava chiclete. Ela deu um sorriso amarelo que mostrava o aparelho com borrachinhas cor-de-rosa. Devia ser timida, a menina.
O chefe bigodudo veio pra ele assim que ele saiu do elevador: “Bla bla bla bla bla.. whiskas sache…”. E ele: “Aha”. O Sr Bigode falava demais, nao dava pra prestar atencao no que ele falava. So no bigode.
Sentou na cadeira, ligou o computador, o msn, o e-mail… Pegou um cafe com bastante acucar. Quando ja estava na calda do cafe, aquele finalzinho que tem um amontoado de acucar pra muito pouco de cafe (sua parte preferida), lambendo a colher de plastico, amassando o copo de plastico, teve uma visao: E se, de repente, um dia ele acordasse e virasse o motorista? Ou a secretaria ruiva? Ou, pior, Sr Bigode?
Levantou assustado. Estava na hora de mudar de emprego.
mau-humor
Abril 18, 2008
Ela tomou um banho longo, esfregou com raiva o shampoo no cabelo, fazendo muita espuma. Os olhos arderam, a lente grudou. Sensação desagradável. Tentando deixar o resto do mundo fora do banheiro, tinha posto Los Hermanos pra tocar. E aquela música chorada foi sendo levado junto com a água, com a raiva, com todas as pessoas.
Malditas pessoas, pensava ela. Por que simplesmente não a deixam? Esqueçam sua existência, só por um tempo. Queria o anonimato total. Porra de orkut. Merda de vida. E a voz do editor-chefe enchendo o saco todo dia não saía daquela cabeça ensopada de shampoo.
Saiu do banho, desligou o som, tropeçou no all star branco jogado no meio do chão. Merda. A casa tava uma bagunça, pratos pra lavar, roupa suja se acumulando, cds em caixas trocadas, copos em volta do computador. Que se foda, disse ela.
Que se foda essa vidinha miúda. Colocou a culpa de seu pseudo fracasso nos filmes hollywodianos que sempre têm um final glorioso. Onde estavam as músicas vibrantes na hora que enfrentava o chefe, os políticos, os inimigos? E as pessoas aplaudindo no final? De certo, não tinha chegado o final, acreditou com uma sobra de esperança. Depois desistiu dessa idéia. Lembrou da vida dos pais. Não tinham recebido nada em troca até agora. Nem dinheiro, nem gratificações, nem nomeações, nada. Nem amor dela.
Sentiu tristeza por um tempo, mas seu egoísmo deixou esse assunto ir embora depois que viu que não tinha mais roupas limpas pra botar. Então, resolveu fazer o mesmo de sempre: Procurou uma blusa mais ou menos limpa, o jeans da semana, passou reto pelo espelho. Acendeu um cigarro, ligou a TV. E se deixou virar vegetal, o seu momento mais feliz do dia.